Arrumei um emprego. Melhor dizendo, um estágio, e na minha área de atuação, sem intermediários ou baboseiras do tipo. Isto era para ser a coisa mais simples, se não fosse pelos meus pais, bando de fofoqueiros filhos da puta, que estouraram esta informação pelo resto da família. Passam os dias e, em toda concentração familiar em que tenho o desprazer de estar, sempre tem aquela perguntinha:
- Você está gostando do seu trabalho?
Eu já perdi a conta de quantas vezes chegaram a mim com esta singela pergunta. Às vezes eu respondia de forma mentirosa para “o bem da humanidade”, como “tô achando ótimo” ou “é legal, interessante e talz…”; mas tem hora que você já não aguenta e o soro da verdade que rasga suas veias faz que responda aquela pergunta com outra pergunta:
- E você gosta do seu?
Ao que parece, as pessoas tentam mostrar aos novatos que trabalhar é algo fantástico, que, como o ditado diz, enobrece o homem. Aí, no primeiro dia, já é perceptível que não é bem assim. Desde que comecei, há mais de um mês, sofri muito para me adaptar ao moderno mercado de trabalho, ter que me adaptar a novos horários, cumprir prazos para entrega de projetos, suprimindo os da faculdade, sofrer para pegar condução lotada (já que um carro é um sonho muito distante para mim), enfrentar as intenpéries da natureza… enfim, a sua vida deixa de ser fácil.
Mas sempre vem algum puto para dizer que há algo bom nisso tudo. E realmente tem. O salário mensal meio que te recompensa por toda a merda que você passou, ou não. Por estagiar eu recebo um valor X por hora, o que obriga que, se eu faltar, a perder uma fração desta soma. E este dinheiro é super importante por que não só cobre os meus gastos bestas (como comida, futilidades, acessórios de informática) como os gastos essenciais, como o transporte, já que, desde que eu disse que consegui a oportunidade de estágio, meus pais deram sua sentença de abandono, do tipo “te vira, seu porra. agora você vais sentir o que nós sentimos durante todos estes anos te criando.”
Aliás, esta atitude dos meus pais foi a maior porrada sentimental que já levei há tempos. Especificamente minha mãe que virou um urubu ao redor da minha carcaça louca para tirar meu precioso tesouro de mim. Ela me regra perguntando que horas eu chego ou saio do trampo e como é meu ritmo de trabalho… nem meu chefe faz isso! Ela levou muito a sério o papo reto do meu pai ao dizer, para mim, com aquela voz de “baixe suas orelhas e escute, seu merda!” que “quando você for rico puder se sustentar, dê um pouco o que você tem para ajudar a sua pobre mãezinha…”.
O mais estranho é que, mesmo depois de receber meu pacotinho de sal (não entendeu? Clique aqui.), eu ainda não gastei nenhum centavo (exceto aquilo em que eu já devia do mês anterior) daquilo que eu ganhei. É isso que chamam do valor social do dinehiro, aquele que aquela nota de dez reais que você ganhou do seu pai/mãe é muito menos importante aque quele em que você foi explorado por seus serviços? São tantas sensações novas que, por um momento bate uma tristeza da sua infância (e lembra daquilo do que os velhos chatos te diziam nesta época, para não perder a infância/adolescência) e da liberdade que ela oferecia…
E, enquanto escrevo, minhas pernas doem depois de um dia cansativo de trabalho, e não há ninguém a quem eu possa pedir uma massagem nos pés, ou simpesmente um carinho para dormir. Foda é pensar que amanhã tem mais. E na semana que vem, no mês que vem…
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