Não basta a sua mãe ter o trabalho de ter te posto no mundo, nem aquilo que você teve que vivenciar durante todos os seus anos de vida, de estudo, de vitórias e derrotas, de amor e ódio, de dias ensolarados e chuvosos; nem basta ter que ser algo perante a esta sociedade, esta máquina autônoma e descontrolada.
O que parece mais importante é: “Você já se encaixou em algo? Você faz parte de algo?”
Não é importante para esta máquina sanguinolenta o que você aprendeu na escola ou as coisas sensoriais que você recebe, e sim a que “tribo”, “partido” ou “rebanho” faz parte. E, o mais importante, se você faz parte da maioria, por que, se não, já será considerado como algo subversivo, algo que as crianças não devem nem ver ou sequer ouvir.
Tomarei o meu caso: Sou um estudante, sou inteligente (mas nem tanto), gosto de informática, ouço rock “pesado”, gosto de mulher e sou um cara pacato e caseiro. Isso é a visão ideal e prolixa de uma definição pessoal. A sociedade, tão carnificenta e sedenta de sangue, já dá os famosos rótulos, pré-conceitos por vaolres já tão deturpados. Resumindo, aquela definição anterior poderia ser dita simplesmente por “ele é um mané, CDF, nerd, roqueiro (metaleiro ou dorme-sujo), tarado (galinha, cafageste e, principalmente, punheteiro) e “cabaço“. Pejorativo demais, não é? Mas é assim que sou visto pelos outros, já como forma de selecionar o “trigo do joio”.
Será que esta sociedade não entende que não é bem assim? Sou estudante e inteligente, por que eu estudei muito e, para quem não nasceu em berço de ouro, é a forma mais possível de uma ascensão social, gosto de informática e games, mas eu também tenho que jogar na vida real (ou você acha que se perder sua “barra de vida” vai aparecer uma tela de “continue”?). Só por que curto heavy metal eu não posso ser considerado somente um metaleiro, já que meus outros gostos musicais (música eletrônica, rock anos 60 e 70 e música clássica) ficariam de fora? E, porra, eu gosto de mulher, oras! Melhor ser mulherengo do que virar bicha, falar fino, rebolar em banda de pagode e dar a bunda.
Ah, esqueci de falar que sou agnóstico… e como isso pesa mal pro meu lado. O singelo fato de duvidar (eu disse DUVIDAR, NÃO é NEGAR) da existência de um ser superior e de seguir seus “conceitos”. Nesta sociedade você precisa obrigatoriamente ter uma religião, apesar de estar bem expresso na nossas constituições federais que nosso Barazil varonil é um estado laico, e que o fato de você não seguir nenhuma doutrina te faz um excluído por opção, um indigente digno de vala comum.
Por exemplo, uma conhecida minha descobriu que eu era agnóstico e ela é uma participante de um de tantos grupos de jovens católicos que tem por aí. Ela já me convidou uma vez para ir “conhecer” o grupo mas eu recusei prontamente. Eu achava que isso acabaria e continuaríamos a ser amigos, cada um como o seu estilo e doutrina. O tempo foi passando e ela se embebia cada vez mais na piscina sem fim da mitologia católica, tanto que ela voltou a oferecer o convite e a insistir toda vez que eu dizia não. Ela se via como uma libertadora, falando de suas experiências extra-sensoriais, de relatos de outros iguais a ela e da maravilha que era “servir ao senhor”. Mas eu a via como uma pastora de ovelhas levando os ingênuos cordeiros para o matadouro (que no meu ver seria a perda da livre expressão, do tão dito livre arbítrio).
(Eu sei que ela vai ler este texto e vai odiá-lo, assim como o autor deste. Mas não me importo, prefiro perder uma amizade a perder minha ideologia, pois amizades você ganha, perde e, talvez, reconquiste; as ideologias não.)
Voltando ao contexto original, o mais escroto desta maldita sociedade não é somente o fato de você, em qualquer coisa, ser “A” ou “B”. Ela ainda que “A” seja diferente de “B” e que “A” odeie “B”. Mais parece aqueles bailes funk antigos (antigo mesmo, coisa da favela mesmo, não era essa coisa tão divulgada, tão próxima das camadas sociais mais altas) que soltavam logo o grito “uh é lado A, lado B é inimigo!”. Quantos não já sofreram ou até morreram por não ser parte da maioria? Quantas pessoas foram destaratadas por serem pobres, homossexuais, por gostar de um estilo de música, por torcer por um time que goste. Quantas discussões, brigas e até guerras já não foram feitas por que o outro é judeu, muçulmano, afro, agnóstico ou ateu? Ser católico é quase uma obrigação, como se não você não for “deus castiga”?
Sempre odiei as formas de religião, seja o catolicismo e suas formas forçadas de fazer as pobres crianças
serem cristãs sem questionar e adorar seus inúmeros ícones, só para agradar os pais/avós babões. Os protestantes (em especial os neo-pentecostais) que entregam deus em domicílio e que transformam seres humanos em gado, que muge alto quando está perto de quem não é dos seus. Os judeus e sua atitude de “coitadinhos” para justificar barabaridades bélicas e os islâmicos (os fanáticos) que se matam apenas para satisfazer seus líderes sedentos de poder.
Como disse há tempos atrás André Dahmer, no site Malvados: “Eu queria ter um deus em que eu não sentisse medo”.
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Ando melancólico demais, não acham? Vou ver se a partir de amanhã eu coloco coisas mais alegres aqui nesta bagaça. Mas para deixar mais confortável, fica aí o clipe, ao vivo da música que entitula este post.
Ciao!
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